Fazer psicoterapia ou fazer análise?
- Gabriel Fernandes de Oliveira
- 12 de fev. de 2022
- 10 min de leitura
Atualizado: 22 de abr.
Uma pergunta que envolve questões históricas, teóricas e políticas. Me vi bem no meio dessa discussão então vou pontuar algumas coisas sobre o assunto a partir do texto Psicanálise e Psicoterapias de Renato Mezan. Mas primeiro, vou localizar minha perspectiva pra essa questão.

Minha perspectiva enquanto Psicoterapeuta
Já comentei sobre a escolha da abordagem na terapia em outro texto, mas retomo que os psicólogos ao longo de sua trajetória profissional continuam estudando devido, em parte, à complexidade que encontramos no dia a dia de trabalho. No caso do trabalho clínico, onde trilho meu percurso, encontro a complexidade nas questões das pessoas e do manejo da relação terapêutica nesse tratamento.
Para lidar com essa complexidade, conto com ferramentas teóricas que direcionam minha escuta e meu olhar para as pessoas que me procuram. Pra saber como manusear essas ferramentas sigo estudando a teoria num processo que digamos... não tem fim. Acontece que as vezes discordo de algo nessa teoria de modo que parece que ela não serve pra orientar qualquer atendimento de qualquer pessoa. Através de discussões com outros Psicólogos, participação de debates, supervisões e mais estudos, encontro um lugar para essa discordância e sigo fazendo o trabalho, as vezes com um certo incômodo, porque minha principal ferramenta de leitura - a abordagem que sigo - as vezes falha em sustentar meu trabalho. Nunca fui de me fixar em uma coisa só, então sempre li de tudo, até coisas que estão bem longe da abordagem teórica que uso.
Chegou um momento no qual minhas discordâncias acumularam ao mesmo tempo em que estava em contato com estudos de uma abordagem diferente da minha que tinha uma resposta para boa parte desses pontos que me incomodavam. Mais que isso, tinham muito a dizer sobre tais pontos. Posso ressaltar principalmente a experiência da falta de sentido e a relação da sexualidade com a saúde mental. Já tinha conhecido essa abordagem ao longo de minha formação, mas não tinha ido tão a fundo nela. Eu, um Psicoterapeuta que trabalhava com Terapia Narrativa voltei a me interessar pela Psicanálise.
Quando me dei conta, fazia mais de um ano que estava estudando somente Psicanálise. Isso mudou em certos pontos minha forma de escutar, enxergar as pessoas e a mim mesmo. Certas intervenções que tinham muito sentido pra mim foram cedendo espaço a uma nova forma de trabalhar que faz muito mais sentido. Chegou um ponto em que o que faço se distanciou de uma psicoterapia e se aproximou de um processo de Análise.
Qual a diferença entre Psicoterapia e Análise?
Em 1904 Freud afirmou que a Psicanálise era uma Psicoterapia. Nessa época psicoterapia se referia ao tratamento de doenças nervosas (ou neuroses), que não tinham causa física e sim psíquica. As neuroses eram diagnosticadas após os exames não apontarem nenhum distúrbio orgânico, então os pacientes eram encaminhados para um tratamento psíquico por meio de uma conversa terapêutica (uma psicoterapia).
Freud criou um método de tratamento das neuroses chamado Psicanálise, a partir do qual desenvolveu uma Metateoria Psicológica, que significa uma forma de compreender o funcionamento psíquico humano como um todo. Ao longo do desenvolvimento da Psicanálise, discípulos e colegas de Freud foram discordando de algumas coisas e desenvolvendo seus próprios métodos e teorias, como Carl Jung e a Psicologia Analítica. Jung discordou que a libido fosse de origem necessariamente sexual, e procurou teorizar a libido como uma energia geral que poderia ser sexual mas não só. Acho muito bonito, mas acho que a libido é um conceito fundamental pra compreender melhor a sexualidade humana e isso se perde nessa inclinação junguiana.
A psicanálise é o método pelo qual um analista conduz a análise de um analisando. Para Mezan ela funciona a partir de uma determinada forma de manejar quatro conceitos fundamentais: o inconsciente, a interpretação, a resistência e a transferência. Qualquer método terapêutico que não opere com esses 4 conceitos não pode ser chamado de Psicanálise. Esses métodos que não operam com esses conceitos que chamamos de psicoterapias. Lacan diria que os quatro conceitos fundamentais da psicanálise seriam o inconsciente, a repetição, a transferência e a pulsão. Parte das psicoterapias vieram da Psicanálise mas se distanciando dela. Outra parte veio por vias mais distantes como as psicoterapias comportamentais. Essas vieram do Behaviorismo que formulou teorias da aprendizagem a partir do estudo do comportamento humano e animal. Por tratar de sexualidade, a psicanálise toca em muitos tabus sociais e muitas vezes atinge o traumático do sexual em nossas vidas, a tornando um alvo fácil de julgar e afastar do nosso interesse, de modo que muitas terapias se contentam em produzir alivio ou redução de sintomas pontuais que não toquem nas grandes questões subjetivas das pessoas. A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) ganhou fama por focar seu desenvolvimento na interlocução com o modelo de psicodiagnóstico biomédico e prometer resultados mais rápidos e garantidos pelas evidências científicas que produzem incessantemente. Facilmente recomendo colegas que trabalham com essa abordagem em casos de fobias pontuais e ansiedades que estão colocando obstáculos imediatos na vida de pacientes que não se mostram dispostos ou capazes de entrar em um processo analítico comigo, ainda que esse diagnóstico possa levar um tempo. Mas para aqueles que buscam saber verdadeiramente sobre si, a psicanálise insistentemente se mostra uma das maiores ferramentas para trazer a tona o desejo que nos coloca no mundo.
É válido considerar também a Psicoterapia Analítica, que se orienta a partir da psicanálise mas não tem as condições ideais para que uma análise aconteça e se opere devidamente com os conceitos fundamentais. Um dos fatores que considero mais relevantes é o tempo do processo. Uma análise não é conduzida a partir da pressa e da busca por resultados rápidos, é um processo artesanal que respeita o tempo de elaboração de cada um.
"As emoções não expressas nunca morrem. Elas são enterradas vivas e saem de piores formas mais tarde" Sigmund Freud
Qual é a melhor?
Cada tipo de tratamento vai se atualizando seguindo seus próprios princípios teóricos. Conheço bons analistas e bons psicoterapeutas em diversas abordagens. Todos são orientados por um trabalho de cuidado e melhora de vida, embora a concepção de cada um do que seja uma vida melhor possa ser diferente.
Falando por experiência própria todas Psicoterapias que fiz me ajudaram, cada uma de uma forma diferente, reduziram ou aliviaram meus sintomas de ansiedade, proporcionaram um espaço de escuta e permitiram que tivesse contato com maneiras diferentes de conduzir um tratamento. Aconteceu que em determinado momento do meu trajeto fez mais sentido entrar num processo analítico por sentir necessidade de acessar questões que parecia que nenhuma outra abordagem se preocupava tanto. Sabe quando você olha a sua volta e vê todo mundo se esforçando tanto pra parecer perfeito o tempo todo, mas paulatinamente enlouquecendo e se esgotando por isso? Sabe aquela ideia de que relações são muito cansativas e que é melhor ficar num movimento narcísico e masturbatório com algoritmos personalizando a realidade pra si? Sabe aquele fenômeno social de que quanto maior a vulnerabilidade de um grupo, mais o grupo recorre a regras de conduta moral rígidas, principalmente de conduta sexual? Pois é, a psicanálise tem muito a dizer a respeito desse diagnóstico social e também do que seria um possível tratamento disso. Cada Psicoterapeuta e Psicanalista terá seu próprio percurso pessoal e teórico que vai tornar sua escuta e suas intervenções singulares. Nenhum terapeuta é igual a outro e nenhum tratamento é igual a outro. Tanto falando de Psicoterapia quanto falando de Análise o que vai tornar o processo mais eficaz é sua disposição em estar nele. Um processo desses pode levar anos, daí a importância de escolher um Psicoterapeuta ou Analista com o qual você consiga atravessar os percalços e as dificuldades de falar aquilo que mais precisa ser dito.
Atualização da discussão
Faz alguns anos desde que publiquei esse texto pela primeira vez, como esse é um texto bastante lido no blog achei interessante acrescentar alguns pontos nessa reflexão a partir do que tenho experimentado na clínica e na análise nesse tempo.
Os conceitos fundamentais da psicanálise nos ajudam a sustentar uma relação de contracultura no encontro clínico. É dificil dizer sobre a psicanálise pelo que ela é, mas talvez um pouco menos difícil dizer o que ela não é, como força de oposição ou bifurcação. Dizer que ela opera como uma forma de contracultura é colocá-la como algo diferente do que é esperado culturalmente, ou prescrito como normal.
Se a cultura coloca o Psicólogo como aquele profissional da saúde que visa a melhora do paciente num dado quadro de valores que apontam o que é melhor e necessário para essa melhora, o Psicanalista aparece como aquele que vai manter em aberto a questão sobre o que é o melhor pra cada paciente. O quadro de valores não vai ser algo estabelecido antes do atendimento, mas construído durante.
A ideia de melhor vai depender do que está sendo considerado o melhor e o pior para aquela pessoa que procurou o atendimento, ainda que no início não esteja claro quais valores estão em questão aí. Por isso o analista não vai se colocar a favor de qualquer valor verdadeiro sobre a cura daquela pessoa, para que a verdade da própria pessoa emerja dessa relação.
Essa é uma diferença importante de uma análise e uma terapia. Na análise há o compromisso radical com o sujeito do inconsciente; com aquele que fala através de nós, por nós, sem percebermos e denuncia os valores que temos e nem sabemos. Quem sabe se isso tivesse sido levado mais a sério, muitas violências cometidas com pacientes LGBT ou neurodivergentes ao longo da história não teriam acontecido, já que existe uma violência diagnóstica em julgar como anormal pessoas que não respondem ao critério de normalidade da cultura vigente. Por isso é importante manter um senso crítico afiado com relação a diagnósticos de saúde mental, já que da mesma forma que homossexualidade e transexualidade deixaram de ser considerados distúrbios mentais com o avanço da ciência e da cultura, outros diagnósticos podem passar por processos semelhantes.
Os conceitos fundamentais permitem que criemos uma situação onde esse tipo de experiência apareça. Vou correr o risco de perder rigor teórico e talvez até de soar vulgar, mas vou tentar descrever de forma resumida como esses conceitos aparecem na clinica de modo a diferenciar uma Psicanálise de uma Psicoterapia.
O inconsciente é essa instância que reconhece que há algo em nós além do que nossa consciência alcança, de forma estrutural. As psicoterapias trabalham a partir da consciência, e apesar de considerar fenômenos inconscientes não se apoiam nele na condução do tratamento.
A transferência é a relação que se estabelece entre analisante e analista na qual um saber inconsciente é transferido ao analista, que é o que o autoriza, inclusive, a operar nessa função de analista. A função de analista existe num momento, não o tempo todo, e é no momento onde a fala do analisante se endereça ao analista nessa forma de transferência de saber. Nas psicoterapias isso pode até acontecer, mas o psicoterapeuta responde a partir de um saber (da psicologia, das ciências, do seu próprio quadro de valores, etc);
A interpretação é como o analista responde desse lugar que a transferência possibilitou, através do discurso do analista, que tem a ver com uma forma diferente de estar na relação com os outros, onde a angústia de não saber é sustentada. A resposta do analista é sempre do lugar do não saber em direção à divisão subjetiva do analisante que fala , que pergunta, que demanda um saber sobre si, sobre seu sofrimento, sobre sua falta.
A resistência é uma operação do sujeito do inconsciente que busca manter a integridade da sua estrutura psíquica. Ela aparece como uma recusa em reconhecer o inconsciente e seus efeitos caso a revelação seja algo doloroso, vergonhoso ou difícil de aceitar por qualquer motivo. A negação e o esquecimento são formas comuns de resistência e são fenômenos essenciais pra balizar o tempo de elaboração de cada um (que eu já tinha apontado nesse texto). Como uma operação inconsciente, as psicoterapias não consideram esse fenômeno, já que trabalham a partir do que está no alcance da consciência.
A psicanálise foca nos conflitos entre nossos desejos e as interdições, o que queremos, podemos ou devemos. Por isso trata de questões culturais, já que a construção do que é mais ou menos permitido e mais ou menos aceito é uma construção social que varia de local pra local. Mas também trata de interdições reais que ainda não foram simbolizadas, como uma fantasia infantil onipotente de que podemos ter tudo que gostaríamos de ter.
Ser um psicólogo e estar fazendo meu percurso na psicanálise tem me levado a refletir cada vez mais sobre as pressões sociais em cima de ideais culturais que deixam pouco espaço pra desejar no meio disso tudo. O desejo na psicanálise não se trata de uma vontade, mas de uma falta, de um vazio que é estrutural. Ir contra a cultura é um exercício que nos leva a (re)conhecer cada vez mais a cultura em que estamos inseridos e pensar até que ponto estamos vivendo uma vida mais nos nossos termos ou nos termos dos outros.
A psicanálise não resolve todas as questões e não é a melhor indicação em todos os casos. Mas de fato ela propõe um tratamento diferente de uma psicoterapia. Inclusive ela procura tratar esse tipo de idealização. Ainda sinto dificuldade em pensar se em algum momento eu deixo de ser psicoterapeuta de orientação psicanalítica pra ser 100% psicanalista ou vice-versa, mas percebo que ao longo da formação me torno cada vez menos psicoterapeuta e mais psicanalista, no sentido de conseguir sustentar melhor as condições pra que uma análise de fato aconteça.
A Psicoterapia que aprendi na faculdade é muito mais próxima de uma atividade médica, que segue uma lógica da saúde e que usufrui do poder que o discurso sobre a saúde carrega. Uma diagnóstica que dialoga com prescrição de tratamentos e medicamentos para redução de sintomas. É justo reconhecer que são práticas eficazes nisso e, em alguns casos, mais que a psicanálise.
Mas é importante reconhecer também, que o objetivo da análise é outro. A Psicanálise é um convite para uma forma diferente de se relacionar com o saber, o desejo, a verdade e a existência no mundo social. Diferente de tudo que foi prescrito, de uma forma singular sua mas também em relação com aquela figura de analista que você escolheu e o que quer que a imagem dele represente para você. Faço a leitura de que uma análise produz uma forma mais autêntica de viver que reconhece os limites humanos de si mesmo e do outro.
Não se levar tão a sério, aprender a perder e se permitir experimentar a falta de sentido pode ter uma relação próxima com um estado de menor sofrimento e uma vida mais significativa. Se não for isso, talvez eu esteja fazendo errado minha análise e no futuro volte nesse texto pra falar mais sobre isso.
Dicas
1) Qual é a diferença entre psicologia, psicanálise e psiquiatria?: ttps://www.youtube.com/watch?v=FjYvwYuCsDE
2) Quem precisa de análise?
3) Qual a real diferença entre Psicologia e Psicanálise https://www.youtube.com/watch?v=ewn8DBJ-Viw&t=39s

