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Por que a inteligência artificial não faz terapia?

Foto do escritor: Gabriel Fernandes de Oliveira
Gabriel Fernandes de Oliveira
há 11 minutos
5 min de leitura

Ou por que a busca por respostas rápidas é tão adoecedora?

É importante idealizar para desejar, mas também é importante reconhecer as ilusões que sustentam o desejo. Resoluções rápidas de problemas psíquicos tem um excelente apelo como propaganda e de fato, com o avanço da tecnologia a humanidade tem condições de resolver rapidamente problemas que demandavam mais tempo como por exemplo a troca de mensagens a distância. Porém, embora tentador acreditar, estamos longe de generalizar essa capacidade resolutiva para tudo.


A inteligência artificial exemplifica como o cidadão virtual comum encara problemas cotidianos: buscando uma resposta rápida, acolhedora e convincente. Mas, como a mente é expressão do corpo e o corpo é expressão da mente, a lógica do sofrimento mental não funciona como uma correção de bug de um software, há limites intransponíveis e que demandam tempo para se produzir uma cura, tal como um corte ou uma ferida não consegue ter a regeneração acelerada, algumas feridas psíquicas demandam tempo e trabalho de elaboração.




O tempo próprio de cada um


Escutei na faculdade alguém dizer que, em média, levaríamos metade do tempo que um relacionamento durou para superar a dor de seu término, então um relacionamento de 4 anos teria suas feridas reparadas em 2 anos. Essa piada tinha uma utilidade além do humor, retirava sujeitos em luto pelo término de uma pressa por eliminar todas emoções e memórias desagradáveis, muitas vezes se submetendo a situações de risco ou engatando novos relacionamentos para tamponar a dor.


Não há uma fórmula que diz quanto tempo dura um luto, até porque toda perda é muito específica... ainda que irmãos gêmeos percam um pai, por exemplo, não dá pra dizer que ambos sentem exatamente a mesma perda. Ainda que sentissem algo parecido com relação a essa perda, não dá pra afirmar que a elaboração dessa falta se daria da mesma forma, ao mesmo tempo. Até o ponto onde é possível reconhecer uma "superação" é difícil de localizar... o sofrimento está superado quando alguém para de chorar quando lembra da pessoa perdida? Quando para de pensar na pessoa perdida? Quando consegue voltar a trabalhar sem prejuízos na produtividade? Assim como muitos ideais sociais, a saúde mental foi induzida pelo sistema capitalista neoliberal a estar associada com a capacidade produtiva de um indivíduo. Muitas vezes nossa tendência a querer resolver algo rápido está influenciada pela voz de outros que cobram que voltemos a trabalhar e produzir o quanto antes, em diversos âmbitos da vida, inclusive em termos de performance social de felicidade, realização e sucesso.


Ao reconhecer que não é possível acelerar um processo de cura, nem prometer prazos, a psicanálise permite que o sujeito tenha tempo e espaço para sentir as emoções (ainda que interrompam o processo produtivo), que reconheça a importância delas (ainda que não interessem a lógica do mercado) e que aí possam decidir o que fazer com elas sem procurar formas de negá-las, como anestesia ou negação - "tá tudo bem, isso não foi nada, vamos voltar ao trabalho!..." (o que interessa muito ao mercado da performance e produtividade).


A psicanálise não nega que a cura envolve a capacidade de amar e trabalhar - como menciona Freud - mas não corrobora com a aceleração que atropela a elaboração do sujeito, muitas vezes de forma violenta, priorizando o sujeito produtivo. A psicanálise busca um sujeito emancipado, que consegue desejar dentro dos seus limites, ainda quando o desejo desafia um limite. Atletas olímpicos trabalham de forma intensa e disciplinada para superar os limites do seu corpo, mas mesmo num regime desafiador, há um delineamento de até onde podem ir sem que seu esforço acarrete mais prejuízo que ganho. Se há um limite, a diferença é quem o determina. Pode ser o chefe, a família, o próprio corpo na forma de sintomas físicos ou o ato de um sujeito emancipado.


Uma das descobertas do processo analítico é compreender os limites que a realidade impõe, e isso inclui a realidade do corpo, a realidade do tempo e a realidade da indeterminação como por exemplo a impossibilidade de estipular ou prever quando algo acontece. O sujeito ansioso, eventualmente obsessivo, investe muita energia em prever o futuro principalmente no grau onde isso é impossível. Acelerar um processo que tem um tempo próprio, e independe de nossa vontade e intenção, configura em muitos casos a tentativa de controlar e prever o futuro, antecipando ele. O REAL sempre traz consigo alguma angustia quando esbarramos nele, e a indeterminação do tempo é algo que angustia o sujeito do desempenho e produtividade neoliberal, principalmente porque não atende as demandas constantes e exigentes do Deus Mercado.


A procura por um diagnóstico pode cumprir o papel de atender esses anseios e sustentar sua ilusão, determinando algo no meio de tanta coisa indeterminada, dando um nome pra tanta coisa inomeavel. De fato, o diagnóstico cumpre muitas funções importantes, das quais destaco:


  1. Nomeação do Sofrimento: Dar contorno e palavra à dor para orientar a construção da cura.

  2. Direção do Tratamento: Oferecer um norte para as intervenções clínicas específicas de cada estrutura.

  3. Abertura de Novos Caminhos: Servir como ponto de partida — e não como uma resposta final ou rótulo engessado que paralisa o sujeito.


Se tem algo que o diagóstico não oferece é uma resposta final e conclusiva a respeito da condição do sujeito. Posso listar os sintomas de um transtorno de ansiedade generalizada (TAG), mas a maneira como cada um lida com cada sintoma é única, e é isso que dirá do quanto esse diagnóstico representa prejuízo a vida, pode ou não ser curado. Quando diagnósticos são usados como justificativa final, conlusiva e inquestionável ele perde todo potencial que tem de orientar a direção de um tratamento. Não é incomum o uso de diagnósticos como uma desculpa pra não tocar em assuntos referentes ao diagnóstico. Isso pode funcionar bem com a sociedade em geral, mas na terapia, diagnóstico é o assunto mais importante de ser compreendido e até debatido, até para encontrar um diagnóstico ainda melhor, se for o caso.


Ao reconhecer o valor da singularidade do sujeito, a psicanálise não impõe formas de saída e elaboração de sofrimentos que sejam incompatíveis e invasivas, mas cria um espaço que permite que cada um encontre seu próprio estilo e caminho para construir saídas. Não há pressão ou cobrança por resultados rápidos, por "alto desempenho na terapia", ou em comparação com os outros. Quem decide o tempo das coisas é o inconsciente, que está estruturado como uma linguagem que aparece na fala durante a análise, esse é o guia que determina os limites e potencialidades do processo analítico.


IA não faz terapia, dentre diversos motivos, porque é treinada para eficiência e respostas rápidas, não lê o tempo lógico do inconsciente e nem além do que é dito. Se quiser experimentar um espaço que não permita que você queime a largada da cura e reconheça seu ritmo pessoal de elaboração e resolução de problemas, te convido para uma consulta inicial!

 
 
 

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