Por que faço análise?
- Gabriel Fernandes de Oliveira

- há 5 horas
- 6 min de leitura
Toda semana antes de encontrar meu analista faço esse exercício de me perguntar por que me submeter a essa experiência de abrir as minhas questões mais íntimas pra outra pessoa ouvir, afinal o que ganho com isso?
A resposta curta: ganho uma vida alinhada ao desejo que me move e coloca no mundo.
A resposta mais detalhada precisa recuperar movimentos que realizei na minha história.

Antes da terapia
A primeira vez que busquei ajuda profissional foi em 2015, estava passando por um momento desafiador envolvendo excesso de demandas relacionais e acadêmicas, convivia com ansiedade sobre meu futuro, me percebia de forma muito crítica e negativa e não tinha motivação pra nada. Estava no fundo do poço e ainda assim resistindo reconhecer que precisava de ajuda, ou que alguém fosse capaz de dizer alguma coisa que eu já não soubesse. Era mais fácil imaginar o fim do mundo do que me imaginar recebendo uma ajuda que fizesse diferença.
Entrei, então, numa disciplina de análise funcional do comportamento. A estratégia clínica de mudar o comportamento buscando diminuição dos sintomas fez muito sentido, a lógica era impecável, bons argumentos, boas evidências. Pedi indicação da própria professora e quis experimentar. Sou eternamente grato à minha psicóloga, foram 3 anos trabalhando juntos e conseguimos que saísse daquele buraco e concluísse a graduação. De fato, vi como uma aliança terapêutica e um trabalho rigoroso consegue mudar vidas. Conforme experimentava efeitos da terapia em mim fui guiando meus estudos e minha formação a entender como poderia oferecer isso às pessoas.
Durante a terapia
Conheci diversas abordagens tanto via estudo quanto supervisão de estágio e, ao me graduar, cheguei na que mais me identifiquei e sentia capaz de operar: Terapia narrativa. Uma vertente onde encontrava tanto na teoria quanto na prática uma maneira de usar tudo de melhor que tinha aprendido na graduação e poderia oferecer para conduzir a terapia de um paciente. Estava imerso, fiz duas iniciações científicas nessa vertente, acompanhei investigações, práticas e debates no laboratório por 3 anos, mudei de terapeuta e passei a fazer minhas sessões com uma terapeuta narrativa e também supervisões com outra terapeuta narrativa. Não era mais sobre buscar alivio de ansiedade, ou fim da depressão, era sobre me entender melhor, em cada nuance, para conseguir entender melhor as outras pessoas.
Trabalhar com escuta clínica nos convoca, a cada sessão, a repensar quem somos, o que significa ser humano, e a reconhecer nossas dores ocultas para que elas não nos distraiam ou impeçam de escutar a dor do outro.
Fim da terapia
Depois de quase 2 anos nesse movimento, cheguei em angústias sem solução tanto no meu processo terapeutico quanto de alguns pacientes. Essas angústias me consumiam e giravam em círculos na terapia e supervisão a ponto de começar a duvidar da capacidade curativa dessa abordagem, pelo menos naquele contexto que tinha acesso. Foi nesse momento que veio a pandemia. Nunca trabalhei tanto. Quanto mais pessoas ouvia e mais atendimentos realizava, mais via necessidade de buscar uma formação clínica que amparasse aquela angústia crescente.
Iniciei o aperfeiçoamento em orientação profissional, já que parecia a questão mais relevante para saúde mental, na minha percepção, e que esbarrava num limite da terapia como conhecia até então. Ao final do dia de trabalho pensava: o que mais vai trazer saúde mental na vida dessas pessoas, agora, é um trabalho que as sustente e que elas consigam sustentar, não tanto uma terapia. Como eu posso ajudar nisso então? E foi uma das melhores coisas que fiz na minha formação. Não só porque tive uma visão mais ampla da relação que uma pessoa estabelece com seu trabalho e futuro, mas também porque tive contato com excelentes psicólogos e psicanalistas.
A psicanálise trabalhava há décadas angústias que vivia cotidianamente na minha terapia e escutava na clínica, mas propunha saídas bem interessantes. Então mergulhei de cabeça no estudo da psicanálise.
Começo da análise
Não faz muito sentido oferecer um tratamento que nunca recebi, então encerrei meu trabalho com minha terapeuta e supervisora, e procurei um analista (por indicação), passei a fazer supervisão com diversos analistas e participar de grupos de estudo de psicanálise.
Nas primeiras sessões me atropelava nas próprias palavras para explicar ao analista todas angústias e labirintos onde transitava e a primeira revelação que tive a partir de sutis apontamentos era que estava falando mais sobre o que sabia, do que sobre o que gostaria de saber. A psicanálise dá uma atenção especial ao que se repete no discurso, e nunca tinha parado pra pensar nisso, sempre agi assim no automático. E esse tal desejo está mais perto da falta do que da posse.
Aos poucos fui tentando formular mais perguntas, mas também percebi que tinham dois tipos de pergunta: aquela que realmente procura uma resposta e aquela que não quer saber a resposta. Ficava mais nítido como é desagradável me ver num lugar genuíno de não saber, mas que era só aí que realmente descobria o que gostaria de saber. Não é tão simples formular perguntas sobre nós mesmos que realmente estamos dispostos a ir atrás das respostas.
Então entrei na fase de anotar os sonhos, anotar as questões e levar para análise. Tinha um certo anseio em conduzir o tema da análise, cuidar que nada sairia de controle, que tinha objetivos claros nas sessões. Fui percebendo o resultado de anos de pressão neoliberal em ter bom desempenho e se dedicar ao máximo sempre se repetindo na relação com meu analista que apontava de forma muito sutil "não precisa ler o que anotou, só fala o que você lembra". Pode parecer um detalhe, mas esse controle era um aspecto relacional que se repetia na minha vida, me atrapalhava nas relações e passou batido nos primeiros 5 anos de terapia por duas terapeutas.
A análise envolve aproximação e confronto com o desejo, com a falta e com a angústia. Me dei conta de que tinha juntado um arsenal de ferramentas ao longo da vida que me mantinha no "controle", bem longe dessa tal falta e consequentemente bem longe do desejo, fazendo com que muitas vezes me sentisse impotente e paralisado diante da vida.
Os primeiros cortes de sessão que levei (técnica polêmica de Lacan que, vulgarmente, consiste em terminar a sessão no momento certo) tiveram multiplos efeitos em mim. Alguns cortes afiados me colocavam cara a cara com os mestres que governavam minha vida sem que percebesse, leis exaustivas que me obrigava a seguir e não sabia. Outros cortes foram ásperos, não gostei, não entendi, não fez sentido... cheguei até a ficar com raiva por fazer uma sessão de 15 minutos sem entender porque acabou daquele jeito. Voltava na sessão seguinte com uma vontade de xingar meu analista equivalente a vontade de entender as raízes daquela raiva, e de repente, lá estava, mais uma questão cabeluda que eu preferia esquecer e ele me fazia repetidamente me lembrar localizando elas no meu próprio discurso.
Análise hoje em dia
Toda sessão de análise segue apenas uma regra fundamental: "fale tudo o que lhe vier à mente". Não importa o que seja. É uma forma totalmente diferente de estar com o outro, nunca tinha experimentado isso, afinal em todas outras terapias conseguia levar minha organização, meus objetivos, meus planos infalíveis pra chegar bem onde eu gostaria, mas ali eu tinha que abrir mão do controle e dos julgamentos que poderiam impedir que falasse. E desde então isso é o que mais me surpreende na análise, a fala sempre revela o que está na alma, quanto mais despida a fala for.
O real desafio da análise é escutar o que é dito. Uma infinidade de livros e décadas de estudo pra acessar um método de escuta. A clínica psicanalítica é a prática dessa escuta pelo analista. Ao falar tudo que vem a cabeça revelamos quem somos, de onde viemos e para onde vamos até nos pontos onde não conseguimos acessar. E é importante que não acessemos tudo de uma vez, há um motivo para os conteúdos inconscientes serem... inconscientes. Por isso a autoanálise tem um limite bem claro: não podemos romper com nossas resistências por vontade própria, não podemos porque não conseguimos e não podemos porque não devemos. Cabe ao analista o papel de dosar a angústia, localizar o momento do sujeito que emerge na fala, e frear ou acelerar sem fundir o motor ou romper os freios.
Quem guia a análise é o inconsciente. É por isso que volto semanalmente pro divã, eu quero sim "resolver minhas questões", pelo menos o suficiente pra desejar, tenho pressa em viver mas também sei que há um limite próprio do tempo de processamento de cada um que não adianta acelerar, escutamos apenas aquilo que suportamos escutar. Quero saber o que falta e o que angustia, quero uma vida que seja o mais pulsante, desejante e livre possível. É por isso que faço análise.
Se você sente que é o momento de conversar com um analista, te convido para uma conversa.





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